Para passar um fio por dentro da parede sem quebrar, só dá certo se já existir um eletroduto livre entre os dois pontos: você guia o fio novo com uma fita passa-fio, usa lubrificante para cabos e respeita o limite de ocupação do tubo. Sem eletroduto, ou com ele cheio ou rompido, a técnica não funciona e a alternativa é rota externa ou abertura localizada.
O que precisa existir para a técnica funcionar
Em casas e apartamentos brasileiros, a fiação costuma ficar dentro de eletrodutos embutidos na alvenaria ou no forro. Eles ligam caixas de tomada, interruptor e pontos de luz. Se você quer passar um fio de luz na parede, o primeiro passo é saber se há tubulação disponível:
- Eletroduto vazio entre duas caixas (comum em reserva para TV, ar ou rede).
- Eletroduto com folga, que já leva fios, mas tem espaço para mais um.
- Nenhum eletroduto, como em paredes de drywall sem tubulação ou em reformas sem previsão.
Nem toda parede tem esse caminho, e dá para ter só uma parte do trajeto livre, com o resto bloqueado ou cheio.
Segurança antes de qualquer coisa
Este serviço mexe com fiação, e a regra é a mesma de qualquer trabalho elétrico: desligue o disjuntor do circuito antes de abrir caixa ou puxar fio no mesmo eletroduto. Um mesmo eletroduto pode levar fios de mais de um circuito, e cada um só fica sem energia com o próprio disjuntor desligado. Por isso o mais seguro é desligar o geral durante a puxada.
Quem não é eletricista não deve ligar nem desligar os fios nas pontas, nem fazer emendas. A parte do morador, quando cabe, é a preparação do caminho. A puxada de fio com ligação em caixa, tomada ou interruptor é do eletricista. Para cabos de sinal, como rede, TV ou telefone, o risco elétrico é baixo, mas o trajeto precisa ser independente do eletroduto de energia.
Material necessário
| Item | Para que serve |
|---|---|
| Fita passa-fio (aço ou fibra) | Guia que percorre o eletroduto com curvas |
| Lubrificante para cabos | Reduz o atrito e protege a capa |
| Fio novo na bitola do circuito | Conforme o projeto e a carga |
| Fita isolante e fita adesiva | Para unir a ponta do fio à fita passa-fio |
| Lanterna | Para ver dentro da caixa |
| Luvas | Proteção das mãos contra arestas |
Detergente ou óleo não substituem o lubrificante próprio, porque podem ressecar a capa ou deixar resíduo. Use apenas o produto indicado para cabos.
Quanto cabe no eletroduto: ocupação máxima
A norma de instalações elétricas (NBR 5410) limita a ocupação do eletroduto para que os fios não sejam esmagados nem aqueçam demais. O limite é uma porcentagem da seção interna do tubo.
| Número de condutores no eletroduto | Taxa máxima de ocupação |
|---|---|
| 1 condutor | 53% |
| 2 condutores | 31% |
| 3 ou mais condutores | 40% |
Os eletrodutos mais comuns em residências são os de 3/4" (nominal de 25 mm no eletroduto corrugado) e 1" (nominal de 32 mm). Quantos fios cabem depende do diâmetro interno do tubo e do diâmetro externo de cada fio, que muda com a bitola, a isolação e a marca. A tabela abaixo dá só a ordem de grandeza para fios de mesma bitola, com a regra dos 40%; o número exato vem da tabela do fabricante do eletroduto e do cabo.
| Bitola do fio (cabo flexível 750 V) | Eletroduto de 3/4" (aprox.) | Eletroduto de 1" (aprox.) |
|---|---|---|
| 1,5 mm² | até cerca de 12 a 15 fios | até cerca de 20 a 25 fios |
| 2,5 mm² | até cerca de 8 a 11 fios | até cerca de 14 a 18 fios |
| 4 mm² | até cerca de 6 a 8 fios | até cerca de 10 a 13 fios |
| 6 mm² | até cerca de 4 a 6 fios | até cerca de 8 a 10 fios |
Caber fisicamente não é o único limite: quanto mais circuitos dividem o mesmo eletroduto, mais os fios aquecem e menor fica a corrente que cada um pode levar. É por isso que o eletricista, e não só a conta de espaço, decide se o fio novo entra.
Um eletroduto de 3/4" que já leva três fios, por exemplo, pode ou não aceitar mais um. Se o fio novo for grosso, o espaço acaba rápido. Quando a ocupação está no limite, o eletricista avalia outra rota. Forçar a puxada danifica a capa dos fios que já estão lá, e o dano só aparece depois, como curto ou como disjuntor desarmando.
Técnica: puxar o fio novo amarrado no antigo
Quando já existe um fio no eletroduto e a ideia é trocar ou acrescentar, a técnica mais usada é amarrar o novo no antigo e puxar. A sequência é feita pelo eletricista, ou com ele no comando, com a energia desligada:
- Desligue o disjuntor e abra as duas caixas das pontas. Quem faz isso, e solta os fios das conexões, é o eletricista.
- Solte o fio antigo e deixe uma ponta livre em cada caixa.
- Una a ponta do fio novo à ponta do antigo, em escalonado, com fita para ficar fino e sem degraus. Dobre a ponta do metal para não furar a fita.
- Passe lubrificante nos primeiros metros do fio novo.
- Puxe o fio antigo pela outra caixa, com força constante. Um ajudante empurra o fio novo na entrada, com movimento firme.
- Pare se travar. Puxar com mais força quebra a emenda ou arrebenta o fio. Volte um trecho e retome devagar.
- Solte o fio antigo quando o novo aparecer. Deixe sobra suficiente para ligar nas caixas.
- Reconecte nas caixas, o que também é serviço do eletricista.
Com a fita passa-fio, em eletroduto vazio
Quando não há fio no eletroduto, a fita passa-fio faz o papel de guia:
- Empurre a fita por uma caixa até aparecer na outra.
- Prenda a ponta do fio à ponta da fita, bem presa e sem degrau.
- Puxe a fita de volta, trazendo o fio, com lubrificante.
- Remova a fita e deixe sobra nas caixas.
Em curvas muito fechadas ou em eletroduto com mais de duas curvas seguidas, a fita pode travar. Uma ajuda é empurrar de um lado e puxar do outro, ao mesmo tempo.
Quando a tubulação não dá
Não force nestes casos:
- A fita não passa de um certo ponto, o que indica eletroduto amassado, rompido ou entupido por argamassa.
- Há fios demais, e a taxa de ocupação seria ultrapassada.
- O eletroduto é antigo e de material ressecado, que pode quebrar quando mexido.
- A parede é de drywall sem eletroduto ou com fios soltos no vazio.
- O trajeto tem mais de duas curvas seguidas.
Nessas situações, existem alternativas que não exigem quebrar a parede: canaleta aparente, que fica pintada na mesma cor da parede, ou novo eletroduto aparente. O eletricista indica o que cabe no seu caso.
Cuidados que evitam danificar a capa do fio
Puxe sempre em linha reta, sem torcer o fio nem deixar que ele raspe na quina da caixa. Uma rebarba na boca do eletroduto corta a isolação, e o dano só aparece meses depois, como curto. Se houver rebarba, o eletricista alisa a boca do tubo antes de passar o fio. Use luvas, porque a ponta do metal e a fita podem cortar a mão.
Marque cada ponta do fio com fita colorida ou com letras (por exemplo, fase, neutro e terra) antes da puxada. Quando três ou quatro fios saem de uma caixa sem identificação, fica fácil ligar errado, e trocar fase por terra é um erro grave. Respeite também as cores: azul-claro para o neutro, verde ou verde e amarelo para o terra, e outras cores para as fases.
Quando chamar um técnico
Chame um profissional se:
- O eletroduto está cheio ou não passa a fita.
- É preciso ligar o fio novo a tomada, interruptor ou disjuntor.
- Você não sabe qual disjuntor comanda o circuito.
- O circuito é de chuveiro, ar-condicionado ou forno, onde a bitola e a proteção têm de ser calculadas.
- A parede mostra manchas, umidade ou o eletroduto aparenta estar rompido.
Se o eletroduto está cheio ou rompido, um eletricista avalia rota alternativa sem obra. Na visita, pergunte qual taxa de ocupação o eletroduto tem depois do fio novo e se o disjuntor do circuito continua adequado para a bitola escolhida.